Eu me lembro bem que a casa do meu avô sempre me pareceu uma espécie de museu habitado dentro do qual ele escondia suas memórias no meio das belezas do mundo. Ele, um advogado, sempre teve um misterioso talento pra decoração que eu nunca entendi bem de onde veio, mas que tentei muito copiar. Meu avô sempre viveu bem nesses detalhes e nesses meios termos entre uma certa rigidez formal e um gosto deleitoso para os papéis de parede mais inusitados. …


Para a edição do Escritas Libres sobre a Colômbia, foi inevitável para mim querer escrever sobre “Cem anos de solidão” — afinal, há anos ele é um dos meus livros preferidos. Me arrependi muito dessa escolha. É difícil demais falar sobre um livro de que eu gosto tanto, e sobre o qual todo mundo já falou o que tinha pra falar. Reli o livro para ver se encontrava algo novo ou que tenha me passado despercebido antes, mas vi que foi justamente esse reencontro entre eu e ele que me proporcionou tantas memórias e tantas outras sensações. …


Às vezes me pergunto o que exatamente constitui um bom livro. Será que há alguma regra? Penso nos grandes clássicos, e eles me parecem ter algumas coisas em comum: apresentam diversas perspectivas, falam dos grandes temas que definem o ser humano, criam um clima imersivo ou têm alguma inovação de estilo. Todas essas características pra mim também são as que mais me chamam a atenção nos livros que eu leio. …


Pra mim nunca foi fácil me identificar com personagens em livros — sempre senti que é comum demais que as personagens femininas fiquem orbitando em torno de homens e, nesse sentido, atuem como meras coadjuvantes sem grande importância em si mesmas. “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende, é, no entanto, um caso que destoa completamente desse padrão: sendo um dos romances mais célebres e conhecidos de uma escritora latino-americana, foi especialmente impactante para mim por subverter essa lógica já tão antiquada e cansativa. A autora parece conseguir captar algo de muito pessoal nas relações familiares e encaixa isso com…


“Garotas mortas”, de Selva Almada, recupera e traz à tona a história de Andrea Danne, Maria Luisa Quevedo e Sarita Mundín, três jovens vítimas de feminicídio nos anos 80 que nunca tiveram os casos concluídos pela investigação policial. Em função disso, as mortes dessas moças deixaram inúmeras questões em aberto e uma terrível angústia assombrando todas as mulheres argentinas. …


Desde o título, o romance “O avesso da pele” já se coloca claramente contra a redução da subjetividade dos personagens a qualquer estereótipo ligado à cor da pele. Revela assim, também, que a obra pretende abordar a questão racial por uma perspectiva capaz de trazer à tona o mais íntimo e complexo que se tece nas relações das pessoas. …


A primeira vez que me lembro de ter andado no centro de Juiz de Fora eu ainda não morava aqui, e esta era só a cidade onde morava a maior parte da minha família. Fui passear com meu avô, depois do trabalho dele, lá pelas 17h, e a grande aventura consistiu apenas numa ida a uma galeria pra gente tomar um café e levar um relógio pro conserto. Agora faz tempo que não ando na rua, espero o sinal abrir ou encontro um conhecido no calçadão. E, a cada dia que passa, percebo que sinto falta de mais e mais…


O impacto de ler “Grande Sertão: Veredas” é avassalador: não se pode sair desse grande clássico da literatura brasileira e universal sem se sentir transformado. Entendo agora que não é à toa que, pra tanta gente, esse livro vire uma espécie de bússola, bíblia ou amuleto. Há de fato algo que se ganha ali em termos de largueza e profundidade do olhar que se pode ter sobre o país, a vida, a política, o mal, a coragem, o amor. Trata-se de um livro que faz as perguntas fundamentais e se recusa e simplificar as respostas.

A travessia para a qual…


“A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz, começa com uma vertiginosa cena de duas irmãs se perdendo enquanto fazem uma caminhada. Mais do que um ponto inicial da narrativa, no entanto, a cena se mostra como uma metáfora e uma antecipação fantasmagórica do que viria mais adiante: a separação trágica das duas e, num outro nível, também a dolorosa ruptura delas com si mesmas.

A assustadora ideia das irmãs se separarem, naquele momento, já conta com a narração de um pensamento de Eurídice após ter, de fato, perdido a irmã. Em ambos os momentos, Eurídice fica para trás…

Elisabetta Mazocoli

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